"Viver com medo é viver pela metade."
 
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Sobre a Arte e a 26° Bienal de São Paulo


Percebo ser comum a timidez que uma obra de arte propõe nas pessoas. Penso que por ser um conceito pouco dominado e de muito valor social, as pessoas em geral, diante de uma obra artística, buscam segurança com a frase: "Eu não entendo nada de arte..."

Entendo que existe nesta frase certo cuidado, afinal é verdade que para se conhecer de arte é necessário muito estudo, afinal este é um território muito vasto. Porém creio que possa existir também certo "desentendimento" do que seja arte e um grande medo de expor sentimentos.

Quanto ao "desentendimento", coloco abaixo o conceito de arte do dicionário Aurélio. Selecionei nele dois que justificam esta minha afirmação. No item 4: "A capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos" fala de uma habilidade de expressão criadora de sensações e sentimentos. Sendo assim, sem tirar o mérito das grandes obras da humanidade, poderíamos considerar cozinhar como uma arte? Afinal através do ato transformador criativo quem cozinha pode estar expressando sensações e sentimentos. Talvez arte seja algo mais simples do que estamos imaginando para resgatarmos a frase: "Eu não entendo nada de arte..."

Veja o item 3 que lindo: "Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação." O grifo é meu para ressaltar que arte passa por uma vivência pessoal e profunda, e que busca provocar ressonância no outro que a recebe. Creio que isto intimida mesmo! Fazer arte é pura expressão de si e recebê-la implica em se abrir neste prolongamento proposto e se renovar nesta experiência.

Confesso que fui a esta 26° Bienal de São Paulo com medo. Fui sabendo que não sei conceitualmente muito sobre arte e tinha medo também da "provocação" artística que encontraria lá, pois sabia que é tradicional nestes ambientes a quebra de padrões estéticos aceitos tradicionalmente. Levei então no bolso a frase de escudo protetor: "Eu não entendo de arte..."

Em certa medida eu estava certo: Eu seria provocado, seria exposto a obras que não me deixariam em paz, que fariam em mim revoluções sensoriais. Logo de cara os organizadores avisam isto:

A gente quer chocar você logo na entrada. Este ano a Bienal é gratuita.

Percebi logo de cara, sim é intencional, eles querem me provocar. E conseguiram. Mas foi uma delícia!

O tema desta bienal é: Território Livre. Você talvez esteja se perguntando o que isto significa, veja o que os curadores da exposição dizem: Na estética, o território livre começa onde o mundo convencional termina. Designa aquele espaço no qual a realidade e a imaginação estão em conflito. Os artistas são os guardiões das fronteiras de um reino situado além da sociedade administrada, em paragens não mais alcançadas pelo poder interpretativo das instâncias política e econômica.

Como se pode notar, a Bienal é de outra ordem de realidade, onde as convenções são realmente abolidas em busca de novas formas de expressão. As obras ali expostas representam para o olhar enigmas intencionais, sejam estes plásticos, poéticos, culturais, universais... Senti logo de cara um prazeroso desafio em "responder" a estes enigmas, e fiquei feliz em estar livre do conceito de certo ou errado, afinal ali é um "território livre", e com certeza a proposta era a de compartilhar novas visões de mundo e ampliar conceitos, sejam de arte, sejam de humanidade. Percebi que se eu "tocasse" a vivência pessoal e profunda do artista, estaria sendo apresentado de um forma magnífica a um renovação pessoal.

Explicando melhor, havia ali um processo em três tempos no contato com a obra. O primeiro falava do estranhamento, do mirar, do Não-Eu, instigando a curiosidade e o desejo de compreensão. Em seguida, tomado pela curiosidade e desejo de compreensão passava para a contemplação, explorando e interpretando os significados ali presentes que me possibilitavam assimilações pessoais e culturais do artista e por fim, o momento poético, de desejo de participação destas transformações humanas que a arte revela.

Ficar de frente de algo que represente fortemente as diferenças, este "eu não sou assim" (Não-Eu, outra visão de mundo.), fazia com que eu me perguntasse: Quem é este artista? Quem sou eu e quem somos nós? De que tamanho é esta diversidade? Que mundo é este?

Foi uma festa sensorial onde fiquei diante de instalações que muito me provocaram. Fiquei diante de trabalhos que ora me acalentaram, que me desorientaram, que me deram felicidade, que me deixaram desconfortável... Mas fiquei feliz de estar em um território livre, onde não precisei enfiar a mão no bolso e utilizar a frase de escudo protetor, sobre não conhecer de arte, afinal, estava em questão ali mais do que um conceito de arte, estava diante de sensações e sentimentos, que não tenho como fugir deles.

Poderia parar por aqui, mas sinto vontade de ilustrar mais o que a arte pode nos alimentar. Como exemplo, trago um quadro que não está nesta bienal, mas é muito expressivo para nos libertar desta prisão conceitual e social do que é arte. Trata-se do Abaporu, da Tarsila do Amaral.

Tarsila descreve o Abaporu como "uma figura solitária monstruosa, pés imensos, sentada numa planície verde, o braço dobrado repousando num joelho, a mão sustentando o peso-pena da cabecinha minúscula. Em frente, um cacto explodindo numa flor absurda". A partir de comentários de uma amiga, que dizia que suas pinturas "antropofágicas" lembravam-lhe seus pesadelos, Tarsila identifica a origem de sua pintura desta fase: "Só então compreendi que eu mesma havia realizado imagens subconscientes, sugeridas por histórias que ouvira em criança, contadas na hora de dormir pelas velhas negras da fazenda. "Segui apenas uma inspiração sem nunca prever os seus resultados."

Este quadro é marco dentro do modernismo que pretendia chocar também, quebrando com as imposições imperialistas daquela época. Repare que artista e observador se inteiraram inclusive para dar significado não só à obra, mas também ao momento histórico, pois Oswald de Andrade frente à esta obra, teve idéia de homem nativo, da terra, antropofágico, nome do movimento artístico que se desenvolvia.

Agora sim concluindo, quero me alimentar de arte como a amiga da Tarsila, sem medo do que é arte, sem medos de certo ou errado. Quero buscar significados profundos em mim e na obra. Quero a liberdade de expressão do outro e minha, permitindo-me inclusive gostar ou não independente de ser obra prima ou não. Quero com isso ampliar quem sou e contribuir com o mundo ao meu redor neste processo de constante transformação.

E você, tem fome de que?

 

 
    Segundo o Dicionário
arte1
[Do lat. arte.]
S. f.
1. Capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria: A arte de usar o fogo surgiu nos primórdios da civilização.
2. A utilização de tal capacidade, com vistas a um resultado que pode ser obtido por meios diferentes: a arte da medicina; a arte da caça; a arte militar; a arte de cozinhar; Liceu de Artes e Ofícios.
3. Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação: uma obra de arte; as artes visuais; arte religiosa; arte popular; a arte da poesia; a arte musical.
4. A capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos: A arte do Aleijadinho é considerada a maior manifestação do barroco brasileiro.
5. Restr. As artes plásticas: crítica de arte; mercado de arte; uma história da arte.
6. O conjunto das obras de arte de uma época, de um país, de uma escola: a arte pré-histórica; a arte moderna; a arte italiana; a arte impressionista.
7. Os preceitos necessários à execução de qualquer arte: a arte da marinharia; a arte de falar corretamente uma língua.
8. Livro, tratado ou obra que contém tais preceitos: a Arte Poética de Boileau; a Arte da Fuga de Bach.
9. Capacidade natural ou adquirida de pôr em prática os meios necessários para obter um resultado: a arte de viver; a arte de calar; a arte de ganhar dinheiro; escrever sem arte.
10. Dom, habilidade, jeito: Tem a arte de comunicar-se; Esse cachorrinho tem a arte de me irritar.
11. Ofício, profissão (nas artes manuais, especialmente): Naquela família a arte de entalhador é uma tradição.
12. Artifício, artimanha, engenho: Não sei que artes usou para convencê-la.
13. Maneira, modo, meio, forma: De tal arte envolveu o chefe que logo se tornou seu secretário; "A podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguém no castelo lhe tornou a pôr a vista em cima." (Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas, II, pp. 14-15).
14. Edit. Jorn. Editoria de arte (q. v.).
15. Prop. V. arte de propaganda.
16. Bras. Traquinada, travessura. ~V. artes.