"Das cem ou sem razões para amar ."
 
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Sobre o amor...

Gosto muito de pensar nos relacionamentos como uma arte. A arte de fazer com que a chama do amor não se apague. Tenho verdadeiro fascínio por casais que a despeito da idade muito avançada e do tempo vivido juntos ainda guardam olhares apaixonados e valorizam muito um ao outro. (Rubem Alves tem uma bela crônica falando deste tema. Trata dele através da relação da Xerazade e do Sultão nas mil e uma noites. Inspirado por ele escrevo este texto.)

Porém é comum se ouvir dizer que relacionamentos começam em meio ao fogo da paixão, e que este fogo vai dando lugar a algo mais terno, mais brando e tranqüilo que chamamos de amor.  Em muitos casos, este processo de esfriar prossegue de forma talvez indevida e por fim a chama se apaga com o término da relação. Vinícius de Moraes tem um verso conhecidíssimo que fala deste apagar da chama do amor:"...Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure."

Deve haver uma razão muito forte para que isto aconteça e o fogo se apague, afinal, que amante em meio ao fogo da paixão gostaria de ver o fim deste se lhe fosse dada a opção de escolher pela sua permanência?

Vou lançar aqui um olhar sobre o fogo das paixões e seus desdobramentos...

Percebo que existem várias formas de manifestação do amor. Algumas mais nobres, mais elevadas, que gosto de chamar de sublimes. Nestas manifestações sublimes de amor, não se ama enviando endereço para correspondência. Ama-se pela graça que existe no amor, pela consciência que o amor não é regido pela lógica das trocas comercias. Ama-se pela crença da existência do divino no outro. Ama-se pela fé inabalável de que viver no amor é o caminho de redenção das questões existências humanas.

Relacionamentos afetivos homem/mulher tendem para o de amor sublime, porém, via de regra, estão muito longe disto, talvez distantes anos luz, por enquanto, tudo não passa de uma tendência.

Normalmente estes relacionamentos são baseados em trocas afetivas. Um espera do outro certo comportamento, certa atitude, certos valores, carinhos... É importante para os amantes que encontrem nesta relação certas coisas que lhe completem, lhe preencham. Não é à toa que se usem os termos "cara metade", "metade da laranja" ou ainda "tampa da panela", afinal a sensação é a de procurar ou ter encontrado quem lhe completa. O encaixe como pode se notar, deve ser exato, perfeito, para que um aceite o outro como companheiro.

Esta busca de completude parece nos falar de certas lacunas em nosso ser. Parece que necessitamos nos unir a alguém para encontrarmos a felicidade e a paz almejada. Mas do que precisamos nós para termos felicidade e paz? O que buscamos no outro para conseguirmos plenitude?

Suponho que busquemos nossa divindade. Creio que queremos ser grandes, poderosos, magníficos... Assim, procuramos uma pessoa que nos reconheça e mostre que somos belos, ou pelo menos que nos mostre que estamos caminhando para isto, que nos mostre o quanto somos divinos em essência, e que nos permita exercitar isto com ela. Desta forma esta pessoa se perceberá divina também, e as trocas assim são alimentadas quase que indefinidamente...

Sei que é estranho o que vou dizer agora, mas no limite, "uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela". Esclarecendo, quando uma pessoa, por motivos nem sempre perceptíveis, faz aflorar em nós o nosso melhor, ou nos entende, ou faz ressonância com nossos anseios e valores, enfim, quando uma pessoa nos toca em nosso melhor, enxergamos nela, como se esta fosse um espelho, toda a beleza que nosso mundo pode conter. Adoramos isso e passamos a adorar esta pessoa. O fogo foi ateado.

Há também os "buracos afetivos", as "faltas", os "falhas" do ser, que podem ser "completados" pelo outro, quem sabe pelas suas diferenças, quem sabe pela sua amorosidade. Refiro-me aqui às nossas dores, aos nossos traumas, às nossas carências. Estou falando do tímido que encontra a extrovertida e se deleita com o seu falar. A insegura que se tranqüiliza nos braços do homem prático e etc. Seja como for, novamente temos um amor baseado nas trocas, onde depositamos no outro a nossa plenitude. E aqui também o fogo é ateado.

Com este olhar sobre o fogo das paixões posso perceber que o amor homem/mulher não é sem razões, com sem escrito com "s". Ele está mais para um amor com cem razões para acontecer. Porém como dizia Pasqual: "O coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões para o coração, mas que estas estão escritas numa língua que desconhecemos.

Sentimentos, afetos, sensações e intuições são de uma ordem que não se constituem com as palavras, por isso sua lógica é de outra natureza. Nosso inconsciente é assim também. Grande, poderoso, está sempre presente, mas nem sempre decifrável de maneira fácil.

O fogo da paixão é a expressão de quem somos, é a expressão de nosso ser e amamos nos encontrar, sermos preenchidos, estarmos plenos. O parceiro(a) aflora o ser misterioso que somos nós. Por isso a afirmação acima: "Uma pessoa é bela não pela beleza dela, mas pela beleza nossa que se reflete nela".

O fogo da paixão se abranda quando o outro muda e não nos toca mais, ou nossas lacunas já foram tratadas e preenchidas por nós mesmos, ou ainda quando a descoberta de quem somos já não nos causa tanta perplexidade.

Três coisas me animam nos relacionamentos amorosos. A primeira é que tenho claro que ele é o melhor espelho que se pode encontrar para mostrar quem somos nós. Dentro de um relacionamento não se tem como se  esconder de si mesmo e isto nos revela a cada instante.

Segundo, que podemos oferecer o mesmo para quem conosco estiver neste desafio maravilhoso que é o auto-conhecimento através do amor.

Por fim e mais importante, que é o que me coloca perto do meu fascínio por relações ternas, quentes e de longa duração, é que percebo que no fundo de tudo isso há uma verdade que tendo a chamar de espiritual: Vivemos uma mentira quando pedimos amor a alguém. Não somos pedintes, somos seres luminosos e temos todo o amor que precisamos dentro de nós. Somos seres divinos. Como mariposas ficamos buscando cegamente a luz, sem vê-la dentro de nós. Se o fogo das paixões nos leva a nós mesmo, o amor sublime nos leva a Deus.

O fogo só se apaga totalmente, ou ainda pior, nem se acende, quando ficamos presos à idéia de que o outro nos salvará de nós mesmos! Que o outro nos preencherá eternamente, quando na verdade esta é nossa missão.