"Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo." Gandhi
 
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Sobre a mágoa...

"Guardar mágoa é como tomar veneno e esperar que outra pessoa morra."

Mágoa é um tema mais profundo do que pode parecer e de difícil abordagem e tratamento. Mágoa tem no dicionário mais de um sentido, mas o mais popular fala sobre um sentimento ou impressão desagradável causada por ofensa ou descontentamento. Ofensa e descontentamento são situações às quais entendemos como perigo e reagimos a isso, e as reações ao perigo de imediato são atacar ou fugir.

Aprofundando o tema dentro destas duas reações ao perigo, começo falando sobre o ataque (Agressão, destruição). Muitas pessoas, consciente ou inconscientemente, acreditam que punem os outros recusando-se a perdoá-los. Seus atos poderiam ser assim traduzidos: "Se eu não o perdoar, você sofre!" Porém como a frase acima no cabeçalho aponta, apesar da intenção ser a de ataque ao outro, quem sofre com a mágoa é quem a sente.

Experimente na próxima vez que você sentir mágoa por alguém fechar os olhos e reparar nos sentimentos e sensações que tomam o seu corpo. Não dá para dizer que felicidade seja a tônica deste momento, muito pelo contrário, o desprazer é intenso e ainda assim não se resolve a questão da mágoa com o outro. Ficamos neste estado re-sentindo a dor, por isso o termo ressentimento.

A segunda reação possível que a mágoa promove, por esta representar um perigo, é a fuga (Negação, distorção). Não adianta espernear, brigar, chorar, mal dizer... Se tem uma coisa que nunca mudará realmente, é que tudo mudará! A mágoa é uma tentativa desesperada de evitar que tenhamos que nos adaptar a uma nova situação. Somos normalmente demasiadamente apegados ao que nos traz felicidade.

Quando alguém nos ofende ou estamos descontentes, para reaver o estado de felicidade anterior, somos obrigados a re-ver nossos valores, re-ver o mundo de outra forma, ou seja, ver de novo, de forma nova, afinal, o mundo mudou e da maneira como vínhamos vivendo não chegamos a um bom termo. Neste ponto, o que sabemos e gostamos tanto de tentar sustentar, seja sobre nós mesmos ou sobre nossa visão de mundo, só nos servirá para fazer as perguntas corretas na nova situação e não para resolver o que o novo momento exige.

A mágoa na função de fuga tenta jogar para fora de nós esta responsabilidade de conquista da felicidade, culpamos os outros, o azar, Deus e o mundo e fugimos de nossa responsabilidade de criadores do nosso mundo e viramos criaturas sujeitas à sorte e ao manuseio alheio.

Existe um trajeto padrão na formação da mágoa. Ela surge de uma perda, seja esta qual for. Pode ser a perda da estima de alguém, pode ser a perda do emprego, da saúde... Geralmente temos sinais antes do "grande choque". A solicitação do(a) companheiro(a) por mais presença, a cara amarrada do chefe, as dores no peito... Mas quando não aprendemos a ler os sinais da mudança que se anuncia em geral surgem os choques, as rupturas, as quebras, as dores da alma que precisa aprender algo, afinal o que sabíamos e como lidamos não foi o suficiente.

Depois dos sinais, e quando a perda já se instalou e recebemos o grande choque, não há uma seqüência padrão, mas ficamos em meio a negações, alívio momentâneo por sairmos de situações de intensa pressão, medo, raiva e depressão. Negamos que tenha terminado o namoro e continuamos ligando, ou esperando o telefone tocar. Temos alívio, pois ninguém merece aquele chefe ou mulher. Ficamos medrosos em relação ao futuro, pois não sabemos se possuímos a capacidade de dar soluções à esta nova situação. Ficamos com raiva porque não enxergaram a pessoa maravilhosa que somos, mal dizemos e brigamos com o mundo. Como nossa energia está vinculada ao passado, na negação, ao medo e à raiva, perdemos fôlego e nos sentimos fracos, deprimidos.

Com o passar do tempo e com a alma funcioando como uma peneira, experimentando estes estados aflitivos e separando os sentimentos grossos, densos e pesados, aí então podemos voltar nossa atenção para o que passou por ela, podemos focar em outros aspectos nossos, na sutileza de quem somos. E com esta matéria prima sim se pode ter entendimentos da nova situação e se fazer um novo projeto de vida mais adaptado ao momento, e que como terá significado real, baseado em quem somos, terá força e vitalidade para prosperar.

A boa notícia então sobre a mágoa é que ela faz parte de um ciclo, que este ciclo tem finalidade, não é sem propósito, e que ao final deste, na grande maioria das vezes ainda, há um final feliz! Ou seja: Perdemos algo, ficamos de luto de diversas formas, aprendemos sobre nós e sobre o mundo, nos reorganizamos e ficamos melhores!

Afirmo que este é um ciclo, pois tem a ver com as mudanças eternas. A evolução humana é baseada em desafios e adaptações. Algo me diz que tudo foi montado no universo para não nos acomodarmos em certa condição confortável e assim irmos sempre além. Somos no entanto preparados para isto. Somos seres altamente adaptáveis e procuramos estabilidade. Quando algo muda, e sempre mudará, somos preparados para enfrentar os obstáculos e encontrarmos a estabilidade que nos garanta felicidade e bem estar, até que nova mudança chegue e exija que aprendamos algo novo.

OK, eu sei, é uma boa notícia, mas não é propriamente confortável passar por este ciclo. Aqui vão então algumas dicas para o entendimento deste ciclo e adaptação a ele com o intuito de se conseguir o melhor desta situação o mais rápido possível.

- Se você quer felicidade e tranqüilidade não combata a guerra, concentre-se na paz. Se você mantiver o foco na dor da perda ou nas responsabilidades dos outros você ficará preso neste ciclo de aprendizado da mágoa. Solte, libere! Quando largamos uma coisa esta coisa nos larga.

- O luto da perda que nos causou a mágoa é importante, tem de ser vivido para nos dar entendimentos e nos levar a outro lugar melhor, porém ele tem de ser como a dosagem de um remédio. Não pode ser muito elevada senão morremos por causa do remédio. Não pode ser irrelevante senão não faz efeito. Dose a dor da perda com o prazer do encontro. Olhe para atrás para entender o passado, mas não deixe de levantar a cabeça na procura de onde se quer chegar agora.

- Procure um interlocutor que lhe auxilie com bons referenciais que possam contribuir no seu auto-conhecimento. Pode ser um profissional que você admira, um terapeuta, um amigo verdadeiramente sincero, um líder espiritual... Enfim, procure alguém de sua confiança e fale, organize suas idéias, ouça, cresça no contato com quem tem experiências para trocar com você. É inspiradora a troca com que admiramos.

- Na medida que você for se estruturando e se conhecendo melhor, tenha um plano de ação baseado em metas claras. (Na página Desenv. de Talentos Organizacionais você pode encontrar um artigo sobre a construção de metas que pode lhe ajudar.) Busque identificar o que fazer, quando fazer, como, com quem, com que recursos e faça. Isto lhe dará poder!

- Lembre-se, a sua vida é de sua responsabilidade. Tire o foco dos outros, da sorte, dos problemas. Você está onde você se coloca. Seja criador e não criatura!

Para finalizar quero deixar uma reflexão e estímulo poético, onde fica a questão: A mágoa é vilã ou mestra?

De tudo ficaram três coisas:

A certeza de que estamos sempre começando ...

A certeza de que precisamos continuar ...

A certeza de que seremos interrompidos antes de continuar ...

Portanto devemos:

Fazer da interrupção um caminho novo ...

Da queda um passo de dança ...

Do medo, uma escada ...

Do sonho uma ponte ...

Da procura um encontro ...  

Fernando Pessoa