"A consciência surge do reconhecimento das diferenças ." Erick Neumann
 
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"Beleza x Verdade"

Dentro da sabedoria popular tem se que “Religião não se discute”. Gosto de ditos populares, pois na minha opinião eles expressam a consciência coletiva de um povo, e carregam em si um poder de universalidade, ou seja, estes geralmente fazem sentido em qualquer lugar do mundo.

Creio que esta frase formou-se em nossa consciência coletiva devido ao fato de que muito já se sofreu nestas discussões devido à intolerância. Pessoas inclusive já foram queimadas vivas por defenderem suas verdades ligadas à religião.

Os antigos chineses diziam que, quer você ganhe, quer você perca, não há saída agradável no conflito, mesmo que você tenha razão. Conduzir a luta até seu fim é nefasto porque dessa atitude se perpetua a inimizade.

Não quero a inimizade aqui, nem a disputa. Quero a cooperação. Por isso não proponho um conflito de idéias, testando verdades com ou sem tolerância, pois isso leva à inimizade. Desejo fazer como no texto abaixo:

 “Eu leio os textos sagrados como quem lê poesia e não como quem lê jornal. Quem lê jornal procura a verdade dos fatos. Eu procuro a beleza.

Quero uma teologia que seja mais próxima da beleza, porque da visão da beleza surgem os amantes,  mas com a verdade se acendem fogueiras.”
Rubem Alves

A beleza atrai, encanta. A beleza talvez seja a mais alta forma de verdade.

Ok, você pode dizer que "beleza não se põe na mesa", que também "não se discute". Ok, não precisamos discuti-la, podemos somente compartilhá-la, dizer como ela é aos nossos olhos, e quem sabe nos encantarmos com a beleza uns dos outros.

Quem sabe, se formos tolerantes e hábeis e agirmos livres de disputas, poderemos inclusive apresentar nossas verdades também. Somente pelos prazeres da troca e do auto-conhecimento.

Não quero ler os textos sagrados como um leitor de jornal que busca a verdade dos fatos. Quero entender Adão e Eva como personagens marcantes de um romance que faça ou não significado para mim, dada a ressonância interna que eles provocam em mim.

Quero ler os 10 mandamentos não como um código penal, mas como um texto que me inspire de forma ética e estética. Não me importa se existia na época tecnologia suficiente para se construir a arca de Noé, ou a comprovação da virgindade de Maria, ou as provas de ressurreição... Quero sentir e provar da beleza que estes textos promovem em mim e colher os frutos disto.

Creio que meu fardo existencial, ou seja, as respostas que tenho que dar para minha existência neste planeta, seja muito semelhante ao seu. Existem questões abertas sobre a vida e morte, seus significados, nossas origens... Existem temas complexos sobre a liberdade, o bem e o mal, o infinito, o amor... Eu prefiro lidar com este fardo existencial do ponto de vista da beleza, entendendo que ela é a forma mais pura de verdade.

Não se trata-se de um otimismo oco, de ver beleza onde não há, ou ser feliz de mentirinha. Trata se de reconhecer o valor do belo em nossas vidas e o papel que ele tem de nos levar a Deus, ao Todo, ao Vazio, ao Nirvana... à Verdade.