"Quando se tem um porquê viver, pode-se, quase sempre, suportar um como viver".Nietzsche
 
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"Sentimento Oceânico"

Sentimento oceânico é uma expressão forte e possivelmente adequada para se expressar uma experiência de contato divino, de unidade com o Todo.

Freud em seu ensaio: “O Mal Estar na Civilização”, onde ele especula sobre a verdadeira fonte da religiosidade, fez uso desta expressão. Sentimento oceânico refere-se a uma “sensação de eternidade”, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras, de união, que alguns seres humanos sentem. No entanto, ele liga este sentimento não à experiência de contato com Deus, mas sim ao desenvolvimento do ego (eu).

Segundo Freud, aqui apresentado de forma simplista, assim se dá a construção do ego: Quando a criança é recém-nascida, ela ainda é incapaz de distinguir o seu Eu do mundo externo. Ela “ainda não é”, ou de um outro ponto de vista, quem não existe é o mundo externo, ela é tudo o que existe, incluindo o mundo externo. É um sentimento de vínculo indissolúvel. Somente com o tempo ela aprende a fazer esta distinção entre seu ego (Eu) e o mundo externo.

Ela vai percebendo que existem forças de satisfação que vêm do seu próprio corpo e podem provê-la de sensações a qualquer momento, enquanto outras lhe fogem ao controle. Um bom exemplo desta fonte de prazer externo é o seio materno, só reaparecendo como resultado de seu choro de socorro.

Nas palavras de Freud: “Desse modo, então, o ego se separa do mundo externo. Ou, numa expressão mais correta, originalmente o ego inclui tudo; posteriormente, separa, de si mesmo, um mundo externo. Nosso presente sentimento de ego não passa, portanto, de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo- na verdade, totalmente abrangente- que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca”.

Freud supõe que este sentimento do ego primário, onde ainda ele era ainda vinculado com o mundo externo, persista em maior ou menor grau entre os diferentes indivíduos. Isso justificaria este sentimento oceânico. Para Freud, esta sensação de totalidade, de unicidade, não vem do encontro com o divino, com o Todo, mas sim, de nossas reminiscências, de nossas memórias remotíssimas, que existem dentro de nós e nos fazem sentir novamente aquele momento de profunda união com o mundo externo, como se fôssemos um só.

Parece-me que todos nós temos esta necessidade de nos sentirmos unificados novamente, e de já termos vivido esta experiência de união, de eternidade. O que parece divergir fortemente entre nós humanos, é a o entendimento deste fato.

Para Freud, quando buscamos este sentimento oceânico, estamos remontando uma época de sensação de comunhão plena com o mundo. Para outros, estamos retornando à verdadeira fonte da religiosidade, Deus, o Todo, o Nirvana.

Sinto em mim um profundo apelo, que chega a ser uma necessidade, de se conseguir viver este sentimento oceânico. Creio que isto exista em você também, e na grande maioria da humanidade, pois a religiosidade está presente em todas as culturas. Sinto que o entendimento sobre esta busca faz muita diferença na construção de quem nós somos, pois dependendo do que acreditamos, ou nos deitamos no divã do psicanalista, ou vamos para a igreja, ou ainda, vamos a estes lugares a muitos mais outros, ou não vamos a lugar nenhum, ou viramos devotos, ou ateus, ou isto, ou aquilo...

Para você, qual é a verdadeira fonte religiosa? Existe mesmo esta fonte? De onde brota este sentimento oceânico que por vezes experienciamos? O que fazer para conseguí-lo? Quais os caminhos disponíveis?

Não sei se Freud tem razão sobre a fonte da verdadeira religiosidade ser na realidade uma lembrança de tempos idos de nosso ego, onde ele ainda não havia se distinguido do mundo exterior, mas verifico fortemente que existe na humanidade uma sensação de se estar apartado do Todo e uma necessidade de religação. No fundo, creio que todos os nossos atos visam cuidar desta sensação de separação que nos causa tanta solidão.

Pode não ser muito o que é proposto aqui, ou seja, esta busca de entendimento e sentido para o "sublime", já que “o buraco” é muito grande e fundo, mas podemos nos unir nesta busca. Talvez este entendimento nem passe por algo estritamente racional, mas o acho imprescindível.

Concordo com a frase de Nietzsche: "Quando se tem um porquê viver, pode-se, quase sempre, suportar um como viver".